sexta-feira, 10 de maio de 2019

ESTRESSADO, EU?

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Contas à pagar, salário curto, problemas com relacionamento, trânsito, faculdade, falta de clientes, professor que não responde e-mail com TCC, trabalho-estudo-faculdade, ônibus lotado, metas a bater, horários a cumprir... A todo momento estamos sendo estressados...

O estresse está em todo lugar... Um pouco de estresse é até OK, e até benéfico, porém, o estresse constante, pode causar danos ao indivíduo em diversas áreas da vida, mas, mais especificamente na saúde mental, física e emocional.

Então, vamos direto ao assunto...

O QUE É ESTRESSE?

Estresse é a resposta do corpo a uma situação consciente ou inconscientemente prejudicial. Esta reação advém do sistema primitivo de proteção, onde o corpo se prepara para uma luta ou fuga. São sintomas nítidos da reação ao estresse, o aumento dos batimentos cardíacos, respiração ofegante, sudorese, contrações musculares, dentre outras. Como dito anteriormente, pequenas doses de estresse são saudáveis, pois nos levam a reagir prontamente em situações de perigo, como por exemplo, frear o carro ante um possível acidente.

Mas e quando o estresse se torna algo ruim?

A resposta é simples: quando as situações de estresse são contínuas e intensas. Estar sob fortes cobranças no trabalho, ter prazos apertados para entregar relatórios, trabalho, ou bater uma meta, quando o trânsito para ir ou voltar do trabalho não coopera, quando o relacionamento está fragilizado, quando há acumulo de funções... Este e outros elementos são como "gasolina no fogo" para o estresse.

COMO IDENTIFICAR OS EFEITOS DO 'MAU' ESTRESSE?

Como falamos anteriormente, o estresse tem efeitos comportamentais, emocionais e físicos. Vamos dar algum exemplos de reações do corpo nestas três esferas da vida humana.

- Alergias e doenças de pele
A pele é um dos principais órgãos afetados pelo estresse. Ela é alvo de irritações (dermatites) que surgem em formas de pequenas bolhas, manchas vermelhas e ásperas e tem a coceira como principal elemento.

O estresse também pode causar seborreia/caspa, vermelhidão e coceira nas laterais do nariz, sobrancelha e etc.

- Gripe ou adoecimento recorrente
O estresse ataca e fragiliza o sistema imunológico, deixando o corpo suscetível a infecções. Desta forma, é recorrente as dores no corpo, a indisposição, a coriza, dentre outros.

- Diminuição da energia e insônia
Como vimos anteriormente, o estresse colocar o corpo em constante alerta para livrar-se ou brigar com um inimigo iminente. Desta foma, o corpo gasta mais energia, e mantém-se mais vigilante para proteger-se dos "perigos".

O sono é a ferramenta de refazimento do corpo. E o quadro de insônia, rouba a capacidade de reestruturação de seu funcionamento normal, afetando assim, a mente, o corpo e as emoções.

- Alterações da libido
A libido é a energia propulsora do sexo, que motiva a excitação, o desejo, o prazer e a satisfação. Pesquisas indicam que o indivíduo sob forte estresse tem diversos níveis de redução na libido e consequentemente efeitos na autoestima, na relação com parceiro dentre outras coisas, aumento no nível de cobranças e da auto percepção.

Sexo é vida, e é um dos elementos que gera prazer e satisfação. Desta forma, distúrbios na libido precisam ser relatados ao seu psicólogo, terapeuta sexual, médico ou especialista em urologia.

- Problemas digestivos e alterações no apetite
Constipação (intestino preso), diarreia, úlceras, gastrites, inchaços, são efeitos do alto nível de estresse.
O acompanhamento psicológico é fundamental para o diagnóstico e o tratamento do estresse, em parceria com médicos clínicos e psiquiatras.


E o apetite, em?

O estresse altera o apetite, levando a redução ou aumento da apetite.

Estudos revelam, que os altos níveis de estresse levam ao aumento do apetite, e consequentemente o aumento de peso e a obesidade. O estresse aumenta a produção do hormônio grelina, que inibe a saciedade, aumentando assim a ingestão de alimentos e ocasionando o aumento de pesos, além da produção de cortizol, que gera acúmulo de gordura abdominal.

- Irritabilidade
É natural que devido o desgaste derivado do estresse, as pessoas fiquem mais explosivas, intolerantes e irritadiças, causando transtornos nas relações interpessoais.

- Baixa concentração
Devido ao esgotamento ocasionado pela insônia e a incapacidade de regeneração adequada do corpo, a concentração altamente afetada, e podem ser percebidas reduções nos rendimentos em diversas áreas.

- Bruxismo
É comum muitos pacientes chegarem ao consultório reclamando de dores no maxilar,
dentes trincados, desgastados, amolecidos e dores no pescoço e na face. Isso se dá devido ao ato de ranger os dentes durante o sono. Em resumo, as tensões do dia são descarregadas na mordida.


- Sudorese
A sudorese é o aumento dos níveis de suor e odor produzidos pelo indivíduo em situações, atípicas. 

O estresse e a ansiedade são causadores da sudorese, mas também é importante observar as condições ambientais, de tireoide e uso de medicamentos.

Em resumo

Nesta publicação, falamos um pouco sobre estresse e seus sintomas. É super importante estar atento a estes e a outros elementos disfuncionais, para cuidar da forma adequada do problema.

Procurar ajuda do psicólogo é fundamental, para um bom diagnóstico e terapêutica adequada. Lembrando que, o estresse é ocasionado por diversos fatores. Então, uma terapêutica adequada, envolve mudança de hábitos, readequação alimentar, e algumas vezes ajuda medicamentosa.


Luan Lins
Psicólogo Clínico
CRP 02/19877
(81) 99616-9271
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sábado, 12 de novembro de 2016

CRÔNICA: O DUPLO CORTE NA CARNE DA ALMA

Delicadamente passa a mão fechada pela navalha de duas lâminas, sentindo um suave arrepio pelo corpo sentindo. Sobre a palma da mão dois cortes simétricos que se misturam em uma única mancha de sangue. Um a representar as próprias vísceras, a própria carne; outro a representar uma agressividade contra o mundo ao redor, contida, a se voltar, impiedosa, insustentável, remoendo o corpo da mão cortada. Uma única mancha de sangue.
Nasceu assim como todo mundo. Um pequeno conjunto biológico com fome e com sensações fisiológicas completamente desorganizadas. Ao mamar, além do leite, foi familiarizando-se com o humano, à revelia, ocupando um lugar predestinado de pessoa pobre e submissa ao poder do outro forte. Como todo mundo, as sensações fisiológicas foram se organizando contra a vontade, em um primeiro trauma, em um primeiro conflito, costumeiramente denominado de desenvolvimento sexual normal. Um pequeno impasse acompanhou já desde a infância. O que é ser normal? Indignação e revolta, não mais como todo mundo, no largar o prazer do corpo todo e submeter-se entre a mãe submissa e o pai violento. Uma luta interna marcada pela violência de não resignar-se, intolerante à submissão, intolerante à agressividade. E a intolerância encontrou-se com o ódio. E o ódio ficou no avesso do que foi, reprimido e latente.
“Não me ouve quem me diz ‘pense positivo’, pois não vive a vida dentro de mim.”
No resto, sobrou a pergunta eterna de uma existência inteira. Por que a primazia do gênero e do genital se o corpo inteiro é prazer sensível? Por que não poder ser menino e menina? Uma única mancha de sangue no corte simétrico na palma da mão. Por que do preconceito percebido desde cedo demais? O mundo impõe-se e a reação não tarda. No amadurecer opta por lutar, fazer prevalecer-se.
E assim foi crescendo, entre socos e pontapés, em um corpo polimorfo, erotizado, com ojeriza de gente. Na incompreensão de si, na luta imersa no conflito, o compromisso foi um delírio persecutório, um quadro de horror e surrealidade, de repulsa e atração simultânea ao sexual.
“Não me ouve quem me diz ‘seja feliz’, pois não vive a vida dentro de mim.”
Naquela sala estranha, não de repente, o estranho foi tomando forma de discurso. Uma fala tímida e agressiva aos dois da sala foi esboçando-se em história a ser contada. Enfim, era possível começar as respostas de certas perguntas. Duas manchas de sangue a formar uma única aquarela. Colorida. Todas as cores são coloridas. Não só rosa. Não só azul. Não só cinza. E a paleta trouxe a tela, e a tela a compreensão de si/mundo de si/mundo para si. E a dor não passou...
“Sabe... Quando eu acreditava que o terror se encontrava dentro de minha cabeça era mais fácil... mais fácil. Saber que está no mundo, é desconfortável... Antes era mais fácil.”
E vai vivendo a vida do jeito que dá. Às vezes, ao olhar a palma da mão, duas pequenas cicatrizes simétricas surgem onde não há mais sangue. Made in Mundo Humano.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

CRÍTICA DE UMA TRADUÇÃO ILUSÓRIA


Por Marcos InHauser Soriano

Lá vai Joana a correr pela praia, cabelos soltos ao vento, pezinhos descalços a tocar a areia, inquieta e livre, parando de repente a pescrutar o mar. O mar também sofre da mesma inquietude, às vezes revolto, às vezes em tranquila calmaria. Joana é mar.
Através da escrita, Clarice Lispector cria a inquieta Joana, em “Perto do coração selvagem”. Joana vai ser assim, inquieta por toda a obra, sempre perto, apenas perto, sem alcançar o selvagem do coração. O mar vai rodear Joana em toda sua existência, através da escrita de Clarice.
Toda obra literária retrata, clara ou enigmaticamente, um pedaço, um recorte do cotidiano humano. Joana cria Clarice, enquanto Clarice vai criando Joana. Um profundo “romper o cerco das coisas” em um ato de mergulho vertical em autêntica transferência entre Joana, Clarice e o leitor de “Perto do coração selvagem”.
Se existe alguma intencionalidade em Clarice? Se existe alguma intencionalidade em Joana? Talvez caiba ao leitor, o trabalho de fantasiar a intencionalidade, em tentativa de traduzir Joana/Clarice a seu modo, individual e único, portanto imperfeito quanto à direção correta de tradução, sempre apenas perto do selvagem do coração.

Marilene Carone, em seu brilhante esforço de tradução de alguns artigos de Freud, nos apresenta, com sinceridade, a dificuldade de tal intento. Utilizo aqui “Luto e melancolia” como exemplo. Traduzir Freud é tentar entrever Viena, localizar o autor no devido contexto histórico de uma época, conhecer profundamente o “jeito” da escrita alemã – tão diferente da nossa -, tentar mergulhar na forma criativa e científico-artística do fundador da Psicanálise. Traduzir Freud é tentar sê-lo apenas de perto.
O próprio Freud nos revela a dificuldade de traduzir a resgatada nomenclatura “melancolia”. Freud sabe e comunica que conseguirá apenas tocar de perto os andaimes que tecem a melancolia, em seus aspectos depressivos e maníacos.
Mesmo Freud, na tradução de Marilene, encontra-se apenas perto da compreensão da melancolia.

Chega dizendo de um estranhamento, um choro assim, que aparece do nada, um choro apenas chorado.
Ao meu silêncio, ao me negar a oferecer qualquer representação, qualquer tradução pronta, o estranho do choro chorado vai buscando formas de minimamente esboçar-se.
De início um atrito resistencial de encaixe de qualquer coisa que represente o estranho. Nada serve, falta. Surge um choro chorado que representa falta. Mais uma vez, sou convidado, intimado a traduzir. Recuo, suportando a angústia que também me atinge. Vejo-me, na falta, a chorar um choro chorado. Se tivermos paciência, o choro chorado da falta há de falar, explicar-se, se fazer entender, traduzir-se por si.
O que falta? Que possamos manter a inquietude de Joana a perscrutar o mar. Que sustentemos a posição de estarmos apenas perto disso estranho, pois que o estranho é inquieto e fugidio feito Joana. Que deixemos que “surja” o sentido da falta. Que escapemos do apelo ilusório de traduzir para, no mergulho vertical da transferência, interpretar.
Interpretar não é traduzir. Interpretar é encontra-se apenas perto, suportar que disso nada há para o saber da razão – Joana a perscrutar o mar.
Traduzir seria apontar um caminho certo, correto, frente a sentidos equivocados. Caminho certo para quem? Caminho correto de quem? Um comportamento adequado talvez?

Interpretar é assim um pequeno movimento de desencontrar o sentido estabelecido, sem certo ou errado. Uma ruptura de sentido, um desencontro do discurso, um movimento sutil a promover o surgir de sentido outro, deste que chora o choro chorado da falta. Interpretar é um ato falho a dois, um momento cômico a romper o engessamento do que se foi sem mais ser. Interpretar é aproximar-se de Joana a perscrutar seu mar, aguardando que o mar de Joana fale para ela, para Clarice, para nós.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

A POLÍTICA DO ESPELHO: UM PENSAMENTO SOBRE AS RELAÇÕES ESPELHADAS NA ATUALIDADE BRASILEIRA
























Por Gilberto Souza



Segundo Hannah Arendt, na modernidade a negação da pluralidade tornou sociedade ocidental apolítica. Stuart Hall por sua vez, considera que na pós-modernidade as identidades são políticas. Bem, tanto Arendt quanto Hall, concluem que na contemporaneidade, a sociedade ocidental tem enfrentando uma grande dificuldade em conceber o outro em sua singularidade, negando assim a possibilidade de qualquer expressão que seja contraria a sua, alimentando assim o discurso de ódio. Qual o perigo disso? A negação do EU.


A teoria psicanalítica - seja qual for a orientação - nos mostra o quanto a presença do outro é importante para a nossa formação enquanto sujeito. Juntamente com o outro podemos manifestar nossas maiores potencialidades e experienciar as mais belas manifestações do que chamamos de existência. Pois bem, quando não aceitamos a singularidade e as peculiaridades do outro negamos a sua história e consequentemente negamos esse sujeito. Freud pensando nessa relação EU-OUTRO/CULTURA escreveu o livro "Psicologia das massas e analise do eu" e por meio deste livro podemos compreender os perigos das relações espelhadas.


Para Freud, o que une e caracteriza a massa é o discurso emocionado do líder- e o que não falta para a sociedade brasileira são líderes, os nossos parlamentares deram vários exemplos votação do impeachment. A FAMÍLIA - modelo ideal de família -, Mãe, filho, TORTURADORES, MARIDO CORRUPTO, "DEUS", assim como a ciência dentre outros são exemplos de figuras ao qual a sociedade brasileira tem servido. Em decorrência disso temos visto os brasileiros se organizar de forma coercitiva. Qualquer construção de narrativa que seja contraria a ao que se pensa, é hostilizada - isso por ambas as partes -, possibilitando a criação de grupos e polarizações, um sintoma disto foi o " muro do impeachment".


Segundo Freud, o indivíduo na massa consegue desenvolver potencialidades que no cotidiano, em sua individualidade, não aparecem por conta da repressão moral. Na massa, o indivíduo sente-se mais forte e movido pelo discurso emocionado do líder faz com que a massa se una em prol do seu desejo. Seu comportamento inconsequente pode levar a catástrofes.


A polarização dos grupos movida pelo gozo das massas tem nos levados a consequências incalculáveis. Agressões verbais e físicas têm assumido o lugar da palavra e da escuta. A polarização e a energia que tem movido essas grandes massas inconsequentes tem impossibilitado o engajamento e a responsabilidade dos sujeitos enquanto cidadãos, alimentando assim o discurso de ódio e o apagamento do outro.



Fiquemos com então com Arendt: “ É com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano; e essa inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico original...seu ímpeto decorre do começo que vem ao mundo quando nascemos e ao qual respondemos começando algo novo por nossa própria força iniciativa. Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa...”. Sobretudo, tomemos a iniciativa Freudiana, a iniciativa da escuta, talvez assim possamos construir juntos uma nova logica dentro dos discursos desencontrados.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

AUTISMO: PARA CONVIVER, É PRECISO CONHECER




















“Eu vivo sempre no mundo da lua, porque sou um cientista, o meu papo é futurista e lunático. Eu vivo sempre no mundo da lua, tenho alma de artista, sou um gênio sonhador e romântico.”

(Guilherme Arantes – Lindo Balão Azul)



Todos os anos no dia dois de abril (02/04) comemora-se o Dia Mundial da Conscientização do Autismo data decretada pela ONU (Organização das Nações Unidas), desde 2008, pedindo mais atenção ao transtorno do espectro autista (nome “oficial” do autismo), cuja incidência em crianças é mais comum e maior do que a soma dos casos de AIDS, câncer e diabetes juntos. No Brasil estima-se que tenhamos 2 milhões de autistas, mais da metade ainda sem diagnóstico. Segundo o DSM – V (2014), as características essenciais do Transtorno Autista são a presença de um desenvolvimento acentuadamente anormal ou prejudicado na interação social e comunicação e um repertório marcantemente restrito de atividades e interesses. As manifestações do transtorno variam imensamente, dependendo do nível de desenvolvimento e idade cronológica do indivíduo. O prejuízo na interação social recíproca é amplo e persistente. Pode haver um prejuízo marcante no uso de múltiplos comportamentos não-verbais (por ex., contato visual direto, expressão facial, posturas e gestos corporais) que regulam a interação social e a comunicação. Pode haver um fracasso em desenvolver relacionamentos com seus pares que sejam apropriados ao nível de desenvolvimento, os quais assumem diferentes formas, em diferentes idades. Os indivíduos mais jovens podem demonstrar pouco ou nenhum interesse pelo estabelecimento de amizades; os mais velhos podem ter interesse por amizades, mas não compreendem as convenções da interação social. Pode ocorrer uma falta de busca espontânea pelo prazer compartilhado, interesses ou realizações com outras pessoas (por ex., não mostrar, trazer ou apontar para objetos que consideram
interessantes). Uma falta de reciprocidade social ou emocional pode estar presente (por ex., não participa ativamente de jogos ou brincadeiras sociais simples, preferindo atividades solitárias, ou envolve os outros em atividades apenas como instrumentos ou auxílios "mecânicos"). Frequentemente, a conscientização da existência dos outros pelo indivíduo encontra-se bastante prejudicada. Os indivíduos com este transtorno podem ignorar as outras crianças (incluindo os irmãos), podem não ter ideia das necessidades dos outros, ou não perceber o sofrimento de outra pessoa. Um dos únicos consensos entre a comunidade médica em todo o mundo é de que quanto antes o diagnóstico for feito e o tratamento iniciado, melhor será a qualidade de vida da pessoa com autismo.  Para muitos, o autismo remete à imagem dos casos mais graves, porém há vários níveis dentro do espectro autista. Nos limites dessa variação, há desde casos com sérios comprometimentos do cérebro, até raros casos com diversas habilidades mentais, como a síndrome de Aserger (um tipo de autismo) – atribuída inclusive aos gênios Leonardo Da Vinci, Michelângelo, 
Mozart e Einstein. Mas, é preciso desfazer o mito de que todo autista tem “superpoderes”. Os casos de genialidade são raríssimos. Para minimizar essa dificuldade de convívio social, vale criar situações de interação. Respeite o limite da criança autista, seja claro nos enunciados, amplie o tempo para que realize as atividades propostas e sempre comunique mudanças na rotina antecipadamente. A paciência para lidar com essas crianças é fundamental, já que pelo menos 50% dos autistas apresentam graus variáveis de deficiência intelectual. Alguns, ao contrário, apresentam alto desempenho e desenvolvem habilidades específicas – como ter muita facilidade para  memorizar números ou deter um conhecimento muito específico sobre informática, por exemplo. Descobrir e explorar as “eficiências” do autista é um bom caminho para o seu desenvolvimento. A medicina e a ciência, de um modo geral, sabem muito pouco sobre o autismo descrito pela primeira vez em 1943 e somente 1993 incluído na Classificação Internaçional de Doenças (CID – 10) da Organização Mundial de Saúde como um Transtorno do Desenvolvimento, que afeta a comunicação, a socialização e o comportamento. Receber o diagnóstico de autismo é sempre impactante para toda a família, principalmente para os pais. É natural que com a chegada do novo membro da família, todos fiquem ansiosos e façam inúmeras projeções, de como será este filho ideal e acabam mobilizando toda a família. Porém, a partir do momento que todos percebem uma determinada diferença nesta criança, acabam surgindo situações e emoções inesperadas no seio familiar, como: angústias, conflitos, frustrações, medos, inseguranças. E em diversas situações a mãe acaba virando alvo de críticas da sociedade, e devido sofrer diante de tamanha pressão social, é a primeira a se culpar e achar que falhou no processo educacional. Uma criança e/ou adolescente autista mobiliza em seus pais o exercício diário que requer muito zelo, paciência, persistência, fiscalização, disciplina, criatividade, e aumento da estrutura familiar, que necessita de uma participação ativa de todos que estão diretamente envolvidos. Com base nas experiências adquiridas na clínica, sugerimos algumas orientações aos pais, como: informar-se; incentivar o filho a se cuidar sozinho; dar tarefas para ele realizar; treinar a generalização do aprendizado; dividir as responsabilidades dentro de casa; ter tempo para o parceiro; estabelecer uma refeição ao dia em família; conversar com outros pais de filhos com autismo; procurar oportunidades para seu filho desenvolver habilidades sociais; trabalhar em conjunto com a escola; lembrar os erros do passado; criar estratégias e por fim se faz necessário que a família busque ajuda especializada e multidisciplinar, como: Psicólogo, T.O, Fonoaudiólogo, além de ser acompanhado pelo profissional da área
Neuro. A ansiedade da família também acompanha com o momento em que a criança autista vai para a escola, a vida escolar é essencial e todos têm o direito de vivenciar essa experiência. Sabemos que é na instituição escolar que aprendemos a ter convivência com os grupos, com os pares, a se socializar, trabalhar em equipe e conviver com as diferenças. E tudo isso é um grande passo para as pessoas que tem autismo, ou seja, são os primeiros passos rumo à vida adulta. Os professores também são os maiores aliados dentro desse contexto de desenvolvimento, o que eles podem fazer? Eles podem avaliar os pontos fracos do aluno e sempre colocar em prática estratégias. Este tipo de desempenho pode fazer uma grande diferença na vida dele. Podendo através dessas ações modificar seu mundo e ampliar seu universo de possibilidades, novidades e atrativos. Além de facilitar o processo da socialização, tornando este momento repleto de harmonia e prazer. Portanto, a escola deve ser muito mais que um simples lugar de ensinar, até por que os autistas podem encontrar ali pessoas que irão acompanha-los por muitos anos. Para que haja um bom acompanhamento e rendimento escolar por parte dos autistas, é necessário que o professor esteja disponível para ajudar, além de buscar capacitações na área. Entendemos que são várias a dificuldades encontradas no decorrer da vida de uma pessoa autista, mas essas pessoas podem ter um futuro repleto de sonhos, se acreditarmos nelas, devido ao transtorno e não doença (o autismo não é doença), muitos têm sérios comprometimentos em seu desenvolvimento. Mas, com a ajuda da família, de profissionais capacitados e especializados, eles conseguem se potencializar, aprender através de seus limites e superando todas as expectativas que são alcançadas, cada passo dado pelo autista é uma grande vitória. É uma grande ilusão pensarmos que os autistas vivem em seu próprio mundo. Não. Eles vivem em nosso mundo. Muitos autistas, porém, têm dificuldade em interagir e se comunicar, por isso não estabelecem uma conversa, ou mantém uma brincadeira, e tendem a isolar-se – não porque querem, mas por não conseguirem. Ao pensar que o autista não tem um mundo próprio, teremos mais chances de incluí-lo em “nosso mundo” com o respeito que merecem, pois preconceito se combate com informação.

POR Érica Silva

Psicóloga Clínica/Escolar – CRP 02/18743
Especialista em Psicopedagogia
Idealizadora do GEAPE – Grupo de Estudos sobre o Autismo de Pernambuco.
Palestrante e consultora escolar.
Colaboradora da Revista In-Evidência
e do Blog Dissertando Psicologia
Sócia-proprietária do VIVER – Psicologia e Consultoria.
Atua como psicóloga nas Cidades: Cabo de Santo Agostinho e Jaboatão dos Guararapes.
Contato: 81 – 9 9748.2883















quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O PRECIPÍCIO














Mundo Contemporâneo... Interessante ideia a de um mundo contemporâneo: amanhã será sempre o contemporâneo de hoje. O contemporâneo carrega representações daquilo que é do nosso tempo. Mas qual tempo o nosso? O tempo corre mais rápido que nossas pernas – não o alcançamos mais. Talvez, hoje, a tecnologia da conexão dite nosso tempo, sem que nos apercebamos disso.
Estamos hoje assim, todos conectados. Nossos smartphones, nunca no modelo mais novo, posto que o novo é muito mais rápido que nossa corrida em busca de tecnologia avançada, vibram e apitam, nos conectando ao Mundo. Entenda-se, isso não é ruim... Não faço aqui um apelo romântico-depressivo de como era bom o tempo do lampião de gás. Hoje somos criaturas humano-tecnológicas, talvez cada vez mais tecnológicas – no sentido de excesso do termo. Todos nós queremos, literalmente, sair bem na foto. Como nossos heróis morreram de overdose, ou viraram franquias cinematográficas, criamos, através da “pseudo-celebridade” (que particularmente considero um tumor de nosso tempo), a possibilidade de sermos, nós mesmos, “celebridades”, nos reinventando apressadamente e precipitadamente a cada minuto.
Nunca estivemos tão ao alcance de todos e de tudo. Nunca estivemos tão desencontrados. Não nos encontramos mais, pelo menos a frequência vem diminuindo vertiginosamente. Estamos a perder a capacidade perceptiva do “olho no olho”, da leitura primitiva da gestualidade, do famoso clima de “química”, nos entregando, na maioria das vezes, em um conjunto de textos prontos, palavras soltas sem sentido, no aguardo de um retorno esvaziado, sem sujeito – pois quem é o sujeito por trás da frase virtual?
As redes sociais de todo tipo, múltiplas e muitas, servem para arrumar, arranjar e ajustar encontros desencontrados. As pessoas adicionam, clicam e esperam. Se o retorno da clicada não vem, não surge, a angústia torna-se silenciosamente incomensurável: estamos fora do pretenso encontro, assujeitados à fantasias de rejeição. Às vezes, esbarramos em persecutoriedade paranoica. Podemos apontar também para a criação de um micro espaço imperialista, onde deve prevalecer a ideia de um, em detrimento do todo, considerado como sendo empobrecido resto. Criamos um império para a celebridade que acreditamos ser: ideias e frases vazias, ideologias sem fundamento, fotos e mazelas de nosso cotidiano, correntes e mais correntes de mensagens religiosas de todos os tipos, mergulhadas em um precipício vazio (e como são irritantes, invasivas, violentas). Porém, encontramos também, pequenos espaços de discussões críticas e construtivas, bem fundamentadas, que promovem troca de ideias – pequenos e raros, mas ricos espaços. No fundo, com raras exceções, queremos apenas ser notados pelo outro, admirados, sermos referência para alguma coisa... Excesso de nós.

Winnicott encontrou, na capacidade de ficar sozinho, um sinal de maturidade emocional – espécie de medida justa na relação entre o Eu e o Mundo.
A capacidade de ficar sozinho está longe da qualquer ideia ligada à solidão. Ficar sozinho não é desabar no precipício da Solidão. Ficar sozinho é suportar-se consigo mesmo, na ausência do outro. Um suportar-se temporário, mesmo no decorrer de um processo de luto real, já que o outro, internalizado, não desaparece simplesmente. A imagem que Winnicott utiliza é a da mãe que sabe ser necessário entregar seu filho ao Mundo, e deste filho que vai adquirindo a capacidade de andar, sem a mãe, pelo Mundo – eterna descoberta, aterrorizante portanto.
Suportar-se com seus fantasmas e terrores implica maturidade.

Com nosso polegar opositor, a teclar nossos smartphones, às vezes maníaca e freneticamente, muitas vezes nos defendemos desta ausência – ausência do outro, que nos coloca em contato direto conosco, em um mergulho vertical em nós, do qual o contemporâneo declara como insustentável possibilidade.
“Ele não vai responder?”; “Será que ela não gostou de mim?”; “Por que não curtiram meu post?”; “Por que não me adicionaram?”...
E assim ficamos, em silenciosa angústia, a esperar o retorno da mensagem que enviamos. E esperamos, esperamos e esperamos – em uma insustentável ausência do ser.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista, membro do Corpo Editorial da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.

REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE: http://www.revistavortice.com.br

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SHIRLEY VALENTINE E O SER DA COMPREENSÃO

 “Ele costumava me amar, por que eu era doida e ainda pensa que sou doida. Sabe o que eu gostaria de fazer parede? Gostaria de beber um copo de vinho onde crescem as uvas, sentada ao mar apenas... olhando o sol se pôr.” (Shirley Valentine)
O filme Shirley Valentine nos remete a uma nova percepção do que seja realmente a atuação do psicólogo junto ao seu cliente, mais do que uma simples escuta e um olhar diferenciado, a protagonista nos mostra que é preciso acreditar em si mesmo e sair da zona de conforto que está inserida o ser humano, sempre mostrando que não é algo tão simples assim, porém é preciso ter foco e determinação para que haja uma recuperação plena da autoestima e assim perceber-se enquanto pessoa, e mulher. O livro: O Ser da Compreensão nos fala que a clínica é o lugar onde trabalhamos a reeducação, a prevenção, portanto a Clínica Fenomenológica veio para mudar e refletir sobre a nossa prática. Para Augras o grande agente da patologização da fala cotidiana é,
sem dúvida, a psicanálise. Avaliar não é o suficiente para entendermos o que se manifesta ali, e assim termos uma avaliação mais profunda. O diagnóstico sempre foi feito de fora para dentro, é preciso repensarmos nossa prática é o que propõe a autora, pois o sujeito é participante desta construção e não um mero observador. Podemos ver que desde o início do filme Shirley Valentine era puro conflito, consigo mesma. Mas, o que seria o conflito para a fenomenologia? É preciso entender que somos seres humanos e somos conflito, faz parte de nossa existência, pois se trata da presença do meu EU em tantos EUs, um bom exemplo é quando ela se depara com a situação do cão, que por regras da casa de seus donos não pode ser ele mesmo, um animal que gosta de comer carne. E Shirley ao ver esta situação sente-se questionada com o que realmente faz parte da natureza do cão que é um ser vivo, portanto acaba se deparando com os primeiros questionamentos desse ser real. Rogers concluiu que a ideia do eu “não representa uma acumulação de inumeráveis aprendizagens e condicionamentos efetuados na mesma direção... Essencialmente é uma gestalt cuja significação vivida é suscetível de mudar sensivelmente (e até mesmo sofrer uma reviravolta) em consequência da mudança de qualquer desses elementos” (1959). Portanto compreendemos que o self trata-se de uma gestalt organizada e consistente num processo constante de formar-se e reformar-se à medida que as situações mudam. Ao compreendermos o contexto o qual se encontra a personagem entendemos que avaliar este sujeito é observar suas nuances, porém de uma forma integrada. Quando entramos no mundo do outro deve ser de forma integra, até por que não entramos no mundo do outro sem que haja modificações no outro e em nós.
A essência para a fenomenologia é estável e não estático. Sabemos que no processo de avaliação iremos buscar o que se apresenta através do comportamento do sujeito, portanto sua estabilidade x instabilidade. Partindo do pressuposto do que seja saúde podemos entender que é o processo de se atualizar com o mundo entrando em acordo com o movimento da vida. Mas, o que é realmente atualizar-se com o mundo? Podemos perceber que no filme, Shirley Valentine busca seu processo de metamorfose e parte para a busca de si própria, e que a partir de novas descobertas ela começa a perceber o seu mundo e o mundo ao redor de forma diferente. O homem, gênero ou individuo, apresenta-se sob um triplo aspecto: representando determinada série animal, ele é natureza; como autor e suporte de um processo constante de manejamento da natureza e dele próprio, ele é história; abrangendo a natureza e a história, é existência. Para Heidegger, a substância do homem não é o espírito-síntese da alma e do corpo – é a existência. O tempo é a nossa história, esta afirmação nos remete para o comportamento anterior e da atual Shirley Valentine. Em sua juventude ela pôde ser ela mesma apesar de suas transgressões, mas mesmo assim lhe faltava algo e as comparações que a professora fazia dela com a aluna mais inteligente da sala, fez com que ela fosse perdendo o que havia de mais belo nela mesmo, a sua essência. Longe de ser exterior ao homem, o tempo é extensão e criação da realidade humana. É paradoxalmente condição de sua existência e garantia da sua impermanência. Porque o homem cria o tempo, mas não o determina. Falar do tempo é descrever toda insegurança ontológica do homem. Vê-se o quanto a psicologia tradicional do tempo, limitada a experimentos sobre a percepção do mesmo ou perdida em especulações acerca da oposição entre vivência individual e duração “objetiva”, deixa de lado uma problemática bem mais funda, que a fenomenologia trouxe à luz: o tempo como construção (AUGRAS, p. 27). Constituímos-nos a partir do tempo e do espaço, o lugar (o meu lugar) é uma continuação de mim. No espaço da coexistência, os homens tecem redes que os aproximam e os afastam, organizando o mundo de maneira a assegurar áreas recíprocas de movimentação. Para Heidegger, o espaço só pode ser compreendido a partir do mundo. O mundo humano é essencialmente mundo da coexistência. O homem define-se como ser social e o crescimento individual dependem em todos os aspectos, do encontro com os demais. “Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio; pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro.”
Para Heidegger, o verbo e o conflito são a mesma coisa. Tanto a necessidade de colocar-se perante o outro, de integrá-lo, de superar a autonomia identidade – alteridade, quanto a conscientização do sentimento de estranheza, levam ao afã de compreender, explicitar, formular a  situação do ser no mundo.
“E havia feição real naquele beijo,
foi o beijo mais doce
que conheci
em anos.”
O espectador assume a co-autoria da obra, na medida em que se torne autor da sua liberdade. O artista age então como mediador, que, ao criar a obra, cria-se a si próprio e propicia o auto-reconhecimento do espectador.
·         “Sonhos – levo a mesa para a beira do mar e torno seu sonho realidade. Esta noite tornei o sonho de alguém realidade.” (Costas)
·         “Por que temos toda essa vida se jamais a usamos? Porque temos sentimentos, sonhos se jamais a usamos? Foi onde Shirley Valentine se perdeu.....”
“Me apaixonei pela ideia de viver.”



Shirley Valentine



Érica Rogéria Cândida da Silva
Professora: Graça Diniz
10º período – Psicologia
2015.2

domingo, 6 de setembro de 2015

Texto 1: A Chegada ao Plantão Psicológico

Por Luan Lins

Acredito que o sonho de grande parte do estudantes de psicologia é chegar ao momento da prática e colocar em ação, tudo aquilo que foi estudado durante madrugadas e fins de semana a fio, onde se é abdicado das festas, viagens, passeios e outros aparatos sociais aos quais temos que suspender em prol da nossa formação. Comigo não é diferente. Atualmente estou no oitavo período do curso de Psicologia, e na instituição onde estudo, iniciamos a prática curricular no oitavo período. Esta prática é a do Plantão Psicológico. O plantão não é uma modalidade usual e padrão para todos os cursos, porém, deixarei nas referências, artigos que falam um pouco sobre esta modalidade. De forma pontual, Tassinari define o plantão psicológico da seguinte forma:

“Em uma primeira aproximação pode-se definir o Plantão Psicológico como um tipo de atendimento psicológico, que se completa em si mesmo, realizado em uma ou mais consultas sem duração pré-determinada, objetivando receber qualquer pessoa no momento de sua necessidade para ajudá-la a compreender melhor sua emergência e, se necessário, encaminhá-la a outros serviços. Tanto o tempo da consulta, quanto os retornos dependem de decisões conjuntas (plantonista/cliente) no decorrer do atendimento.” (2001, p. 2)

É no plantão, onde temos o nosso primeiro contato com o cliente, e para isso, é necessário muito estudo, supervisão e psicoterapia. É essa tríade que vai nos dar condições pra o atendimento.
Inicialmente fui tomado pela ansiedade de chegar a clínica e atender logo, mas descobri que não funciona assim. Sempre tive comigo o pensamento de que psicologia –seja ela qual for a atuação- tem um papel importante e sua intervenção é como se fosse um instrumento utilizado por um neurocirurgião, onde deslizes podem afetar a vida do cliente em diversos níveis. Acho que nem preciso dizer, que o senso de responsabilidade aumenta bastante e que no meu caso, beneficamente me faz pesquisar mais e preencher algumas lacunas que ficaram abertas durante a minha formação. Ai, entra o papel importantíssimo da supervisão. Acho que minha supervisora tem sido essencial para a minha preparação. Nos estudos e reflexões sobre os textos e temas abordados durante os encontros.
Durante os momentos de estudo e supervisão, tem ficado muito claro pra mim, que a minha ansiedade é basicamente pelo fato de querer falar, de orientar, de resolver, em fim. Mas, ela tem abrandado bastante, principalmente quando eu aprendo que na relação com o cliente, eu preciso colocar as teorias, convicções e valores no bolso e suspender (redução fenomenológica), e apenas escutar. Escutar, o que difere do ouvir. Escutar é estar focado e ativo no conteúdo trazido pelo cliente. Existem relatos teóricos que evidenciam a mudança e o impacto positivo que o ato de escutar causa no outro. Confesso que isso é lindo, mas, é necessário muito trabalho pessoal para que a suspensão dos valores seja feita de forma correta e a escuta seja verdadeira. Daí, a importância da psicoterapia. Acho que está claro pra todos os estudantes e profissionais que a psicoterapia é fundamental em todo o processo – se você não está, que tal começar? -, pois ela te dá suporte para lidar com os conteúdos trazidos pelos clientes. Desde então, muita coisa tem mudado, dentre elas, o meu pensamento em relação ao cuidado do outro. É no plantão onde a visão unicamente ‘diagnóstica’ e ‘curativa’ é descontruída. Chegamos muitas vezes focados na patologia e na “cura”. E acredito que seja importante frizar, que não é papel do psicólogo curar. O psicólogo atua como facilitador da compreensão das queixas do cliente e é o cliente que vai orientar todo o processo.

 


















Bom, estou subindo os degraus e já, já estarei no atendimento do plantão. Confesso que dá uma friezinha no estômago pensar como será o primeiro atendimento, mas estou disponível e aberto para me aproximar do self do cliente e ajuda-lo na compreensão das suas queixas e demandas e contribuir para que ele encontre estratégias para o seu pleno desenvolvimento e progresso.

Em breve escreverei um pouco sobre as minhas impressões do primeiro atendimento e como tem se desenrolado os processos do plantão e supervisão. 

Referências
TASSINARI, Marcia Alves. Plantão Psicológico: atendendo no momento da necessidade. In VIII Colóquio de Sociologia Clínica e Psicossociologia. UFMG, 2001.
MORATO, HenrietteTognetti Penha(Org.). Serviço de Aconselhamento Psicológico do IPUSP: aprendizagem significativa em ação. In Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa: novos desafios.São Paulo, Casa do Psicólogo, 1999, p.33-43.
MAHFOUD, Miguel. A Vivência de um desafio: plantão psicológico. In Rosenberg, R.L. (org.), Temas Básicos em Psicologia. São Paulo:E.P.U, pp.75-83, 1987.
LIMA, Elizandra Ferreira. Plantão Psicológico. Recife, UFPE, Trabalho de Monografia. Cap. 2.