sexta-feira, 22 de abril de 2016

A POLÍTICA DO ESPELHO: UM PENSAMENTO SOBRE AS RELAÇÕES ESPELHADAS NA ATUALIDADE BRASILEIRA
























Por Gilberto Souza



Segundo Hannah Arendt, na modernidade a negação da pluralidade tornou sociedade ocidental apolítica. Stuart Hall por sua vez, considera que na pós-modernidade as identidades são políticas. Bem, tanto Arendt quanto Hall, concluem que na contemporaneidade, a sociedade ocidental tem enfrentando uma grande dificuldade em conceber o outro em sua singularidade, negando assim a possibilidade de qualquer expressão que seja contraria a sua, alimentando assim o discurso de ódio. Qual o perigo disso? A negação do EU.


A teoria psicanalítica - seja qual for a orientação - nos mostra o quanto a presença do outro é importante para a nossa formação enquanto sujeito. Juntamente com o outro podemos manifestar nossas maiores potencialidades e experienciar as mais belas manifestações do que chamamos de existência. Pois bem, quando não aceitamos a singularidade e as peculiaridades do outro negamos a sua história e consequentemente negamos esse sujeito. Freud pensando nessa relação EU-OUTRO/CULTURA escreveu o livro "Psicologia das massas e analise do eu" e por meio deste livro podemos compreender os perigos das relações espelhadas.


Para Freud, o que une e caracteriza a massa é o discurso emocionado do líder- e o que não falta para a sociedade brasileira são líderes, os nossos parlamentares deram vários exemplos votação do impeachment. A FAMÍLIA - modelo ideal de família -, Mãe, filho, TORTURADORES, MARIDO CORRUPTO, "DEUS", assim como a ciência dentre outros são exemplos de figuras ao qual a sociedade brasileira tem servido. Em decorrência disso temos visto os brasileiros se organizar de forma coercitiva. Qualquer construção de narrativa que seja contraria a ao que se pensa, é hostilizada - isso por ambas as partes -, possibilitando a criação de grupos e polarizações, um sintoma disto foi o " muro do impeachment".


Segundo Freud, o indivíduo na massa consegue desenvolver potencialidades que no cotidiano, em sua individualidade, não aparecem por conta da repressão moral. Na massa, o indivíduo sente-se mais forte e movido pelo discurso emocionado do líder faz com que a massa se una em prol do seu desejo. Seu comportamento inconsequente pode levar a catástrofes.


A polarização dos grupos movida pelo gozo das massas tem nos levados a consequências incalculáveis. Agressões verbais e físicas têm assumido o lugar da palavra e da escuta. A polarização e a energia que tem movido essas grandes massas inconsequentes tem impossibilitado o engajamento e a responsabilidade dos sujeitos enquanto cidadãos, alimentando assim o discurso de ódio e o apagamento do outro.



Fiquemos com então com Arendt: “ É com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano; e essa inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico original...seu ímpeto decorre do começo que vem ao mundo quando nascemos e ao qual respondemos começando algo novo por nossa própria força iniciativa. Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa...”. Sobretudo, tomemos a iniciativa Freudiana, a iniciativa da escuta, talvez assim possamos construir juntos uma nova logica dentro dos discursos desencontrados.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

AUTISMO: PARA CONVIVER, É PRECISO CONHECER




















Eu vivo sempre no mundo da lua, porque sou um cientista, o meu papo é futurista e lunático. Eu vivo sempre no mundo da lua, tenho alma de artista, sou um gênio sonhador e romântico.”

(Guilherme Arantes – Lindo Balão Azul)



Todos os anos no dia dois de abril (02/04) comemora-se o Dia Mundial da Conscientização do Autismo data decretada pela ONU (Organização das Nações Unidas), desde 2008, pedindo mais atenção ao transtorno do espectro autista (nome “oficial” do autismo), cuja incidência em crianças é mais comum e maior do que a soma dos casos de AIDS, câncer e diabetes juntos. No Brasil estima-se que tenhamos 2 milhões de autistas, mais da metade ainda sem diagnóstico. Segundo o DSM – V (2014), as características essenciais do Transtorno Autista são a presença de um desenvolvimento acentuadamente anormal ou prejudicado na interação social e comunicação e um repertório marcantemente restrito de atividades e interesses. As manifestações do transtorno variam imensamente, dependendo do nível de desenvolvimento e idade cronológica do indivíduo. O prejuízo na interação social recíproca é amplo e persistente. Pode haver um prejuízo marcante no uso de múltiplos comportamentos não-verbais (por ex., contato visual direto, expressão facial, posturas e gestos corporais) que regulam a interação social e a comunicação. Pode haver um fracasso em desenvolver relacionamentos com seus pares que sejam apropriados ao nível de desenvolvimento, os quais assumem diferentes formas, em diferentes idades. Os indivíduos mais jovens podem demonstrar pouco ou nenhum interesse pelo estabelecimento de amizades; os mais velhos podem ter interesse por amizades, mas não compreendem as convenções da interação social. Pode ocorrer uma falta de busca espontânea pelo prazer compartilhado, interesses ou realizações com outras pessoas (por ex., não mostrar, trazer ou apontar para objetos que consideram
interessantes). Uma falta de reciprocidade social ou emocional pode estar presente (por ex., não participa ativamente de jogos ou brincadeiras sociais simples, preferindo atividades solitárias, ou envolve os outros em atividades apenas como instrumentos ou auxílios "mecânicos"). Frequentemente, a conscientização da existência dos outros pelo indivíduo encontra-se bastante prejudicada. Os indivíduos com este transtorno podem ignorar as outras crianças (incluindo os irmãos), podem não ter ideia das necessidades dos outros, ou não perceber o sofrimento de outra pessoa. Um dos únicos consensos entre a comunidade médica em todo o mundo é de que quanto antes o diagnóstico for feito e o tratamento iniciado, melhor será a qualidade de vida da pessoa com autismo.  Para muitos, o autismo remete à imagem dos casos mais graves, porém há vários níveis dentro do espectro autista. Nos limites dessa variação, há desde casos com sérios comprometimentos do cérebro, até raros casos com diversas habilidades mentais, como a síndrome de Aserger (um tipo de autismo) – atribuída inclusive aos gênios Leonardo Da Vinci, Michelângelo, 
Mozart e Einstein. Mas, é preciso desfazer o mito de que todo autista tem “superpoderes”. Os casos de genialidade são raríssimos. Para minimizar essa dificuldade de convívio social, vale criar situações de interação. Respeite o limite da criança autista, seja claro nos enunciados, amplie o tempo para que realize as atividades propostas e sempre comunique mudanças na rotina antecipadamente. A paciência para lidar com essas crianças é fundamental, já que pelo menos 50% dos autistas apresentam graus variáveis de deficiência intelectual. Alguns, ao contrário, apresentam alto desempenho e desenvolvem habilidades específicas – como ter muita facilidade para  memorizar números ou deter um conhecimento muito específico sobre informática, por exemplo. Descobrir e explorar as “eficiências” do autista é um bom caminho para o seu desenvolvimento. A medicina e a ciência, de um modo geral, sabem muito pouco sobre o autismo descrito pela primeira vez em 1943 e somente 1993 incluído na Classificação Internaçional de Doenças (CID – 10) da Organização Mundial de Saúde como um Transtorno do Desenvolvimento, que afeta a comunicação, a socialização e o comportamento. Receber o diagnóstico de autismo é sempre impactante para toda a família, principalmente para os pais. É natural que com a chegada do novo membro da família, todos fiquem ansiosos e façam inúmeras projeções, de como será este filho ideal e acabam mobilizando toda a família. Porém, a partir do momento que todos percebem uma determinada diferença nesta criança, acabam surgindo situações e emoções inesperadas no seio familiar, como: angústias, conflitos, frustrações, medos, inseguranças. E em diversas situações a mãe acaba virando alvo de críticas da sociedade, e devido sofrer diante de tamanha pressão social, é a primeira a se culpar e achar que falhou no processo educacional. Uma criança e/ou adolescente autista mobiliza em seus pais o exercício diário que requer muito zelo, paciência, persistência, fiscalização, disciplina, criatividade, e aumento da estrutura familiar, que necessita de uma participação ativa de todos que estão diretamente envolvidos. Com base nas experiências adquiridas na clínica, sugerimos algumas orientações aos pais, como: informar-se; incentivar o filho a se cuidar sozinho; dar tarefas para ele realizar; treinar a generalização do aprendizado; dividir as responsabilidades dentro de casa; ter tempo para o parceiro; estabelecer uma refeição ao dia em família; conversar com outros pais de filhos com autismo; procurar oportunidades para seu filho desenvolver habilidades sociais; trabalhar em conjunto com a escola; lembrar os erros do passado; criar estratégias e por fim se faz necessário que a família busque ajuda especializada e multidisciplinar, como: Psicólogo, T.O, Fonoaudiólogo, além de ser acompanhado pelo profissional da área
Neuro. A ansiedade da família também acompanha com o momento em que a criança autista vai para a escola, a vida escolar é essencial e todos têm o direito de vivenciar essa experiência. Sabemos que é na instituição escolar que aprendemos a ter convivência com os grupos, com os pares, a se socializar, trabalhar em equipe e conviver com as diferenças. E tudo isso é um grande passo para as pessoas que tem autismo, ou seja, são os primeiros passos rumo à vida adulta. Os professores também são os maiores aliados dentro desse contexto de desenvolvimento, o que eles podem fazer? Eles podem avaliar os pontos fracos do aluno e sempre colocar em prática estratégias. Este tipo de desempenho pode fazer uma grande diferença na vida dele. Podendo através dessas ações modificar seu mundo e ampliar seu universo de possibilidades, novidades e atrativos. Além de facilitar o processo da socialização, tornando este momento repleto de harmonia e prazer. Portanto, a escola deve ser muito mais que um simples lugar de ensinar, até por que os autistas podem encontrar ali pessoas que irão acompanha-los por muitos anos. Para que haja um bom acompanhamento e rendimento escolar por parte dos autistas, é necessário que o professor esteja disponível para ajudar, além de buscar capacitações na área. Entendemos que são várias a dificuldades encontradas no decorrer da vida de uma pessoa autista, mas essas pessoas podem ter um futuro repleto de sonhos, se acreditarmos nelas, devido ao transtorno e não doença (o autismo não é doença), muitos têm sérios comprometimentos em seu desenvolvimento. Mas, com a ajuda da família, de profissionais capacitados e especializados, eles conseguem se potencializar, aprender através de seus limites e superando todas as expectativas que são alcançadas, cada passo dado pelo autista é uma grande vitória. É uma grande ilusão pensarmos que os autistas vivem em seu próprio mundo. Não. Eles vivem em nosso mundo. Muitos autistas, porém, têm dificuldade em interagir e se comunicar, por isso não estabelecem uma conversa, ou mantém uma brincadeira, e tendem a isolar-se – não porque querem, mas por não conseguirem. Ao pensar que o autista não tem um mundo próprio, teremos mais chances de incluí-lo em “nosso mundo” com o respeito que merecem, pois preconceito se combate com informação.

POR Érica Silva

Psicóloga Clínica/Escolar – CRP 02/18743
Especialista em Psicopedagogia
Idealizadora do GEAPE – Grupo de Estudos sobre o Autismo de Pernambuco.
Palestrante e consultora escolar.
Colaboradora da Revista In-Evidência
e do Blog Dissertando Psicologia
Sócia-proprietária do VIVER – Psicologia e Consultoria.
Atua como psicóloga nas Cidades: Cabo de Santo Agostinho e Jaboatão dos Guararapes.
Contato: 81 – 9 9748.2883















quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O PRECIPÍCIO














Mundo Contemporâneo... Interessante ideia a de um mundo contemporâneo: amanhã será sempre o contemporâneo de hoje. O contemporâneo carrega representações daquilo que é do nosso tempo. Mas qual tempo o nosso? O tempo corre mais rápido que nossas pernas – não o alcançamos mais. Talvez, hoje, a tecnologia da conexão dite nosso tempo, sem que nos apercebamos disso.
Estamos hoje assim, todos conectados. Nossos smartphones, nunca no modelo mais novo, posto que o novo é muito mais rápido que nossa corrida em busca de tecnologia avançada, vibram e apitam, nos conectando ao Mundo. Entenda-se, isso não é ruim... Não faço aqui um apelo romântico-depressivo de como era bom o tempo do lampião de gás. Hoje somos criaturas humano-tecnológicas, talvez cada vez mais tecnológicas – no sentido de excesso do termo. Todos nós queremos, literalmente, sair bem na foto. Como nossos heróis morreram de overdose, ou viraram franquias cinematográficas, criamos, através da “pseudo-celebridade” (que particularmente considero um tumor de nosso tempo), a possibilidade de sermos, nós mesmos, “celebridades”, nos reinventando apressadamente e precipitadamente a cada minuto.
Nunca estivemos tão ao alcance de todos e de tudo. Nunca estivemos tão desencontrados. Não nos encontramos mais, pelo menos a frequência vem diminuindo vertiginosamente. Estamos a perder a capacidade perceptiva do “olho no olho”, da leitura primitiva da gestualidade, do famoso clima de “química”, nos entregando, na maioria das vezes, em um conjunto de textos prontos, palavras soltas sem sentido, no aguardo de um retorno esvaziado, sem sujeito – pois quem é o sujeito por trás da frase virtual?
As redes sociais de todo tipo, múltiplas e muitas, servem para arrumar, arranjar e ajustar encontros desencontrados. As pessoas adicionam, clicam e esperam. Se o retorno da clicada não vem, não surge, a angústia torna-se silenciosamente incomensurável: estamos fora do pretenso encontro, assujeitados à fantasias de rejeição. Às vezes, esbarramos em persecutoriedade paranoica. Podemos apontar também para a criação de um micro espaço imperialista, onde deve prevalecer a ideia de um, em detrimento do todo, considerado como sendo empobrecido resto. Criamos um império para a celebridade que acreditamos ser: ideias e frases vazias, ideologias sem fundamento, fotos e mazelas de nosso cotidiano, correntes e mais correntes de mensagens religiosas de todos os tipos, mergulhadas em um precipício vazio (e como são irritantes, invasivas, violentas). Porém, encontramos também, pequenos espaços de discussões críticas e construtivas, bem fundamentadas, que promovem troca de ideias – pequenos e raros, mas ricos espaços. No fundo, com raras exceções, queremos apenas ser notados pelo outro, admirados, sermos referência para alguma coisa... Excesso de nós.

Winnicott encontrou, na capacidade de ficar sozinho, um sinal de maturidade emocional – espécie de medida justa na relação entre o Eu e o Mundo.
A capacidade de ficar sozinho está longe da qualquer ideia ligada à solidão. Ficar sozinho não é desabar no precipício da Solidão. Ficar sozinho é suportar-se consigo mesmo, na ausência do outro. Um suportar-se temporário, mesmo no decorrer de um processo de luto real, já que o outro, internalizado, não desaparece simplesmente. A imagem que Winnicott utiliza é a da mãe que sabe ser necessário entregar seu filho ao Mundo, e deste filho que vai adquirindo a capacidade de andar, sem a mãe, pelo Mundo – eterna descoberta, aterrorizante portanto.
Suportar-se com seus fantasmas e terrores implica maturidade.

Com nosso polegar opositor, a teclar nossos smartphones, às vezes maníaca e freneticamente, muitas vezes nos defendemos desta ausência – ausência do outro, que nos coloca em contato direto conosco, em um mergulho vertical em nós, do qual o contemporâneo declara como insustentável possibilidade.
“Ele não vai responder?”; “Será que ela não gostou de mim?”; “Por que não curtiram meu post?”; “Por que não me adicionaram?”...
E assim ficamos, em silenciosa angústia, a esperar o retorno da mensagem que enviamos. E esperamos, esperamos e esperamos – em uma insustentável ausência do ser.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista, membro do Corpo Editorial da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.

REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE: http://www.revistavortice.com.br

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SHIRLEY VALENTINE E O SER DA COMPREENSÃO

 “Ele costumava me amar, por que eu era doida e ainda pensa que sou doida. Sabe o que eu gostaria de fazer parede? Gostaria de beber um copo de vinho onde crescem as uvas, sentada ao mar apenas... olhando o sol se pôr.” (Shirley Valentine)
O filme Shirley Valentine nos remete a uma nova percepção do que seja realmente a atuação do psicólogo junto ao seu cliente, mais do que uma simples escuta e um olhar diferenciado, a protagonista nos mostra que é preciso acreditar em si mesmo e sair da zona de conforto que está inserida o ser humano, sempre mostrando que não é algo tão simples assim, porém é preciso ter foco e determinação para que haja uma recuperação plena da autoestima e assim perceber-se enquanto pessoa, e mulher. O livro: O Ser da Compreensão nos fala que a clínica é o lugar onde trabalhamos a reeducação, a prevenção, portanto a Clínica Fenomenológica veio para mudar e refletir sobre a nossa prática. Para Augras o grande agente da patologização da fala cotidiana é,
sem dúvida, a psicanálise. Avaliar não é o suficiente para entendermos o que se manifesta ali, e assim termos uma avaliação mais profunda. O diagnóstico sempre foi feito de fora para dentro, é preciso repensarmos nossa prática é o que propõe a autora, pois o sujeito é participante desta construção e não um mero observador. Podemos ver que desde o início do filme Shirley Valentine era puro conflito, consigo mesma. Mas, o que seria o conflito para a fenomenologia? É preciso entender que somos seres humanos e somos conflito, faz parte de nossa existência, pois se trata da presença do meu EU em tantos EUs, um bom exemplo é quando ela se depara com a situação do cão, que por regras da casa de seus donos não pode ser ele mesmo, um animal que gosta de comer carne. E Shirley ao ver esta situação sente-se questionada com o que realmente faz parte da natureza do cão que é um ser vivo, portanto acaba se deparando com os primeiros questionamentos desse ser real. Rogers concluiu que a ideia do eu “não representa uma acumulação de inumeráveis aprendizagens e condicionamentos efetuados na mesma direção... Essencialmente é uma gestalt cuja significação vivida é suscetível de mudar sensivelmente (e até mesmo sofrer uma reviravolta) em consequência da mudança de qualquer desses elementos” (1959). Portanto compreendemos que o self trata-se de uma gestalt organizada e consistente num processo constante de formar-se e reformar-se à medida que as situações mudam. Ao compreendermos o contexto o qual se encontra a personagem entendemos que avaliar este sujeito é observar suas nuances, porém de uma forma integrada. Quando entramos no mundo do outro deve ser de forma integra, até por que não entramos no mundo do outro sem que haja modificações no outro e em nós.
A essência para a fenomenologia é estável e não estático. Sabemos que no processo de avaliação iremos buscar o que se apresenta através do comportamento do sujeito, portanto sua estabilidade x instabilidade. Partindo do pressuposto do que seja saúde podemos entender que é o processo de se atualizar com o mundo entrando em acordo com o movimento da vida. Mas, o que é realmente atualizar-se com o mundo? Podemos perceber que no filme, Shirley Valentine busca seu processo de metamorfose e parte para a busca de si própria, e que a partir de novas descobertas ela começa a perceber o seu mundo e o mundo ao redor de forma diferente. O homem, gênero ou individuo, apresenta-se sob um triplo aspecto: representando determinada série animal, ele é natureza; como autor e suporte de um processo constante de manejamento da natureza e dele próprio, ele é história; abrangendo a natureza e a história, é existência. Para Heidegger, a substância do homem não é o espírito-síntese da alma e do corpo – é a existência. O tempo é a nossa história, esta afirmação nos remete para o comportamento anterior e da atual Shirley Valentine. Em sua juventude ela pôde ser ela mesma apesar de suas transgressões, mas mesmo assim lhe faltava algo e as comparações que a professora fazia dela com a aluna mais inteligente da sala, fez com que ela fosse perdendo o que havia de mais belo nela mesmo, a sua essência. Longe de ser exterior ao homem, o tempo é extensão e criação da realidade humana. É paradoxalmente condição de sua existência e garantia da sua impermanência. Porque o homem cria o tempo, mas não o determina. Falar do tempo é descrever toda insegurança ontológica do homem. Vê-se o quanto a psicologia tradicional do tempo, limitada a experimentos sobre a percepção do mesmo ou perdida em especulações acerca da oposição entre vivência individual e duração “objetiva”, deixa de lado uma problemática bem mais funda, que a fenomenologia trouxe à luz: o tempo como construção (AUGRAS, p. 27). Constituímos-nos a partir do tempo e do espaço, o lugar (o meu lugar) é uma continuação de mim. No espaço da coexistência, os homens tecem redes que os aproximam e os afastam, organizando o mundo de maneira a assegurar áreas recíprocas de movimentação. Para Heidegger, o espaço só pode ser compreendido a partir do mundo. O mundo humano é essencialmente mundo da coexistência. O homem define-se como ser social e o crescimento individual dependem em todos os aspectos, do encontro com os demais. “Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio; pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro.”
Para Heidegger, o verbo e o conflito são a mesma coisa. Tanto a necessidade de colocar-se perante o outro, de integrá-lo, de superar a autonomia identidade – alteridade, quanto a conscientização do sentimento de estranheza, levam ao afã de compreender, explicitar, formular a  situação do ser no mundo.
“E havia feição real naquele beijo,
foi o beijo mais doce
que conheci
em anos.”
O espectador assume a co-autoria da obra, na medida em que se torne autor da sua liberdade. O artista age então como mediador, que, ao criar a obra, cria-se a si próprio e propicia o auto-reconhecimento do espectador.
·         “Sonhos – levo a mesa para a beira do mar e torno seu sonho realidade. Esta noite tornei o sonho de alguém realidade.” (Costas)
·         “Por que temos toda essa vida se jamais a usamos? Porque temos sentimentos, sonhos se jamais a usamos? Foi onde Shirley Valentine se perdeu.....”
“Me apaixonei pela ideia de viver.”



Shirley Valentine



Érica Rogéria Cândida da Silva
Professora: Graça Diniz
10º período – Psicologia
2015.2

domingo, 6 de setembro de 2015

Texto 1: A Chegada ao Plantão Psicológico

Por Luan Lins

Acredito que o sonho de grande parte do estudantes de psicologia é chegar ao momento da prática e colocar em ação, tudo aquilo que foi estudado durante madrugadas e fins de semana a fio, onde se é abdicado das festas, viagens, passeios e outros aparatos sociais aos quais temos que suspender em prol da nossa formação. Comigo não é diferente. Atualmente estou no oitavo período do curso de Psicologia, e na instituição onde estudo, iniciamos a prática curricular no oitavo período. Esta prática é a do Plantão Psicológico. O plantão não é uma modalidade usual e padrão para todos os cursos, porém, deixarei nas referências, artigos que falam um pouco sobre esta modalidade. De forma pontual, Tassinari define o plantão psicológico da seguinte forma:

“Em uma primeira aproximação pode-se definir o Plantão Psicológico como um tipo de atendimento psicológico, que se completa em si mesmo, realizado em uma ou mais consultas sem duração pré-determinada, objetivando receber qualquer pessoa no momento de sua necessidade para ajudá-la a compreender melhor sua emergência e, se necessário, encaminhá-la a outros serviços. Tanto o tempo da consulta, quanto os retornos dependem de decisões conjuntas (plantonista/cliente) no decorrer do atendimento.” (2001, p. 2)

É no plantão, onde temos o nosso primeiro contato com o cliente, e para isso, é necessário muito estudo, supervisão e psicoterapia. É essa tríade que vai nos dar condições pra o atendimento.
Inicialmente fui tomado pela ansiedade de chegar a clínica e atender logo, mas descobri que não funciona assim. Sempre tive comigo o pensamento de que psicologia –seja ela qual for a atuação- tem um papel importante e sua intervenção é como se fosse um instrumento utilizado por um neurocirurgião, onde deslizes podem afetar a vida do cliente em diversos níveis. Acho que nem preciso dizer, que o senso de responsabilidade aumenta bastante e que no meu caso, beneficamente me faz pesquisar mais e preencher algumas lacunas que ficaram abertas durante a minha formação. Ai, entra o papel importantíssimo da supervisão. Acho que minha supervisora tem sido essencial para a minha preparação. Nos estudos e reflexões sobre os textos e temas abordados durante os encontros.
Durante os momentos de estudo e supervisão, tem ficado muito claro pra mim, que a minha ansiedade é basicamente pelo fato de querer falar, de orientar, de resolver, em fim. Mas, ela tem abrandado bastante, principalmente quando eu aprendo que na relação com o cliente, eu preciso colocar as teorias, convicções e valores no bolso e suspender (redução fenomenológica), e apenas escutar. Escutar, o que difere do ouvir. Escutar é estar focado e ativo no conteúdo trazido pelo cliente. Existem relatos teóricos que evidenciam a mudança e o impacto positivo que o ato de escutar causa no outro. Confesso que isso é lindo, mas, é necessário muito trabalho pessoal para que a suspensão dos valores seja feita de forma correta e a escuta seja verdadeira. Daí, a importância da psicoterapia. Acho que está claro pra todos os estudantes e profissionais que a psicoterapia é fundamental em todo o processo – se você não está, que tal começar? -, pois ela te dá suporte para lidar com os conteúdos trazidos pelos clientes. Desde então, muita coisa tem mudado, dentre elas, o meu pensamento em relação ao cuidado do outro. É no plantão onde a visão unicamente ‘diagnóstica’ e ‘curativa’ é descontruída. Chegamos muitas vezes focados na patologia e na “cura”. E acredito que seja importante frizar, que não é papel do psicólogo curar. O psicólogo atua como facilitador da compreensão das queixas do cliente e é o cliente que vai orientar todo o processo.

 


















Bom, estou subindo os degraus e já, já estarei no atendimento do plantão. Confesso que dá uma friezinha no estômago pensar como será o primeiro atendimento, mas estou disponível e aberto para me aproximar do self do cliente e ajuda-lo na compreensão das suas queixas e demandas e contribuir para que ele encontre estratégias para o seu pleno desenvolvimento e progresso.

Em breve escreverei um pouco sobre as minhas impressões do primeiro atendimento e como tem se desenrolado os processos do plantão e supervisão. 

Referências
TASSINARI, Marcia Alves. Plantão Psicológico: atendendo no momento da necessidade. In VIII Colóquio de Sociologia Clínica e Psicossociologia. UFMG, 2001.
MORATO, HenrietteTognetti Penha(Org.). Serviço de Aconselhamento Psicológico do IPUSP: aprendizagem significativa em ação. In Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa: novos desafios.São Paulo, Casa do Psicólogo, 1999, p.33-43.
MAHFOUD, Miguel. A Vivência de um desafio: plantão psicológico. In Rosenberg, R.L. (org.), Temas Básicos em Psicologia. São Paulo:E.P.U, pp.75-83, 1987.
LIMA, Elizandra Ferreira. Plantão Psicológico. Recife, UFPE, Trabalho de Monografia. Cap. 2.

domingo, 28 de junho de 2015

Casamento Gay - Dos EUA ao Brasil, Milhas de Celebrações


















Por Djair Junior



Eis que o azul do céu virtual amanheceu colorido. Não era o arco-íris resultante de gotículas de chuva e raios de sol, mas tratava-se de um arco-íris de celebração. O arco-íris não resultara das chuvas de Junho, mas de décadas de lutas e resistência de um povo que não quer nada além de direitos igualitários assegurados.
No dia 26 de Junho de 2015,  a Suprema Corte dos Estados Unidos da América (EUA) decidiu invalidar os vetos postos por alguns estados conservadores, legalizando assim, o casamento igualitário em todo o seu território. Esta medida tem grande importância, pois a ‘’autonomia’’ dos Estados americanos aliados ao conservadorismo, por muitos anos serviu como justificativa para que 14 dos 50 Estados não validassem este direito. (em 2004 o Estado de Massachusetts se tornou o primeiro do país a legalizar o casamento homossexual).
Aqui no Brasil desde 2011- através do reconhecimento do direito a União Estável para todos - os casais homossexuais puderam, por lei, usufruir dos mesmos direitos de um casal heterossexual. Apesar de se tratar de um conquista importante, este primeiro passo não foi o suficiente para garantir tal direito. Até o ano de 2013 foram documentados casos de juizes que se negavam a realizar estas uniões.
Como resposta a esta resistência, no dia 14 de maio de 2013, foi aprovada uma resolução que obriga todos os cartórios em território nacional a celebrar o casamento civil entre homossexuais, bem como realizar as conversões da união estável em casamento civil em todos os estados. Sim, caro leitor, o Brasil foi o 15° país no mundo e o 4°país americano a  reconhecer legalmente os direitos civis dos homossexuais.
Por  estratégia de marketing ou não, a tela da rede social mais utilizada pelos brasileiros - Facebook -  ofereceu a possibilidade de estampar nas fotos dos perfis dos usuários uma transparência com a bandeira do movimento LGBTT. O mesmo Brasil, que na rede social celebrou a conquista americana, ainda mostra-se resistente e ignorante ao asseguramento de alguns direitos humanos aos LGBTT’s.Listarei brevemente, algumas incoerências entre o que é garantido legalmente e o que é realizado na prática.
No site da Câmara dos Deputados, está sendo votada a aceitação ou negação da sociedade brasileira ao conceito de núcleo família presente no P.L do Estatuto da família. Com a pergunta: Você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, previsto no projeto de lei que cria o Estatuto da Família? Presenciamos de maneira explicita uma tentativa de retrocesso a uma não admissão de que existem uniões que não se enquadrem em um padrão heteronormativo. Ainda mais assustador é saber que até o momento em que escrevo este texto 4.383.021 pessoas, são coniventes com esse conceito reducionista.(Acessado em <http://www2.camara.leg.br/enquetes/resultadoEnquete/enquete/101CE64E-8EC3-436C-BB4A-457EBC94DF4E> em 29/06/2015).
Permitimos a união entre as pessoas do mesmo sexo, mas não ousem gritar um: ‘’Pode beijar o noivo!’’, pois somos líderes mundiais em crimes homofóbicos. No ano de 2014, foram registradas pelo Grupo Gay da Bahia 326 casos letais de homofobia. O conservadorismo e fundamentalismo arraigado em nosso pais e reforçado pela presença de um grande número de religiosos nos mais diversos casos políticos, não permite que avancemos para um modelo de sociedade de fato igualitária, onde todos tenham direito de ir e vir, de amar sem ser crucificado, de constituir famílias aos seus modos e de ter segurança e direito a vida.(  Acessado em : https://homofobiamata.wordpress.com/ em 29/06/2015).
Devemos celebrar o direito ao casamento gay nos Estados Unidos, como quem celebra uma conquista para o mundo. A lei garantirá que mais uma parcela da população mundial tenha direitos iguais no que se refere ao casamento e isso não se reduz a terras americanas, pois conquistas humanas são conquistas do mundo.  Que o Brasil e os Estados Unidos se aprimorem em garantias de direitos iguais e que sirvam de exemplo para outras nações. Que possamos somar as milhas de distâncias entre os Estados ás suas conquistas e convertamos em celebração ao amor. Só assim, veremos nos céus - virtuais ou reais - novos arco-íris, reflexos de tantas lutas.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

ALGUMAS NOTAS SOBRE O FUTURO DO PRETÉRITO


















1. Futuro do Pretérito, tempo verbal que enuncia um fato que poderia ter ocorrido posteriormente a um determinado fato passado.
Freud nos diz que as histéricas sofrem de reminiscências. Talvez todos nós soframos de reminiscências. No relicário de nossa memória, de nossas lembranças, encontram-se representações periféricas que não possuem nome. São “aquilo” que nos acusa do que poderíamos ter sido e não se fez em nós. Um “a posteriori” sempre marcando presença na ausência do que não podemos ser, uma sombra de nós mesmos, o negativo de nossas possibilidades – sempre infinitas, sempre infinitas. O lastro de nosso umbigo.

2. Diz de um futuro em relação a outro, já ocorrido.
No filme “The Butterfly Effect”, de Eric Bress e J. Mackye Gruber (2004), Evan Treborn, um estudante universitário de vinte anos de idade, sofre os efeitos de um sistema dinâmico de dependência estreita entre as condições finais de sua história, em relação às iniciais.
H. G. Wells, já apresentara conteúdo ficcional semelhante em “The Time Machine” (1895), onde um cientista tenta consertar o passado, indo e vindo pelo tempo.
Interessante que em cada tentativa de modificação do que já foi, os personagens padecem de uma turbulenta experiência de transformação caótica daquilo que ainda será.
Interessante... No caso de “The Butterfly Effect”, os diretores nos oferecem alguns finais alternativos para o filme.

3. Hipótese, incerteza, irrealidade, o condicional do que não foi.
O que serei eu lá onde não se fez ainda, lá onde não me fiz ainda eu, olhando-me para o ontem do que fui e que creio ter-me predestinado a ser o que sou e o que serei? A isto posso chamar de Destino. Será possível vencer o Destino? Algumas pessoas parecem vencê-lo... Destino?
Serei eu fruto de combinações, de predisposições, de ambientes, de estruturas biológicas, de condenações metafísicas? Ou apenas serei?

4. Tempo verbal das possibilidades – se tratando de pensamentos, tudo é possível, “seria possível”.
O verbo “conjecturar” é deveras importante para a Psicanálise. Instrumento poderoso, desde que não confundido com devaneios estapafúrdios que conduzem-nos a abstrações sem sentido.
Em seu “Delírios e Sonhos na ‘Gradiva’ de Jensen” (1907), Freud permite-se conjecturar. O jovem Norbert, fascinado pelo relevo em mármore de sua Gradiva, (re)encontra a morta-viva nas ruínas de Pompéia. A fascinação se dá pelo efeito de ser o objeto de seu desejo – sua Gradiva em sua Pompéia -, nada mais do que Zoe, a amiga de infância, uma infância perdida no ontem, que direciona o agora, e traz o desfecho do amanhã. Zoe, por seu lado, aceita o destino de morta-viva imposto pela desatenção de seu pai e identificado no não correspondido amor de seu colega de infância. Ao final da obra de Wilhelm Jensen, de 1903, o amor, tratado por Freud como forma de cura, vence o delírio do jovem Norbert: o Desejo sobre o Destino.
Para além de uma aula de Psicanálise, um Freud genial entregando-se a uma grande conjectura sobre a infância remota e um futuro que, neste caso, acaba em “Happy End”.

5. Futuro do Pretérito, tempo da lógica do inconsciente. O Inconsciente, de certa maneira, é Futuro do Pretérito – inconscientes de tantas relações infinitamente possíveis.
O sujeito humano é sujeito inserido no cotidiano (ou quotidiano, de “status quo” – função de localização espacial). O cotidiano dos homens, correria à parte, é constituído de diálogos, conversas. As conversas entre pessoas são regidas por um tema assentado sobre uma lógica, normalmente oculta. Conversa-se, mas conversa-se sobre o que? Sobre várias coisas ao mesmo tempo – camadas de temas sobrepostos a outros temas. Ao núcleo oculto de um tema, encontramos regras próprias que o sustentam, regras estas também ocultas, inconscientes.
Atualmente, através do desenvolvimento das ideias psicanalíticas que, aliás, estão sempre a se desenvolver, percebemos a importância de relativizar o Inconsciente freudiano não mais como um “topos”, um lugar, mas sim como o próprio sistema de regras que regem o cotidiano, ou cotidianos dos homens. Não temos, então, o Inconsciente, mas sim inconscientes relativos aos diversos e possíveis campos de discurso.
Conversamos sempre sobre um “agora”, localizado entre um pretérito experimentado neste momento e um futuro desejante e projetado também neste momento.
Sou Eu agora, entre o que fui e o que serei.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista, editor da Revista Vórtice de Psicanálise.